Um rosto anguloso emoldurado por uma barba aparada. Um sujeito boa praça, vestido para o ofício de jornalista: uma camisa de mangas dobradas, uma calça jeans e sapatos de couro. Meio formal, meio desleixado. Porque não posso revelar seu nome verdadeiro, vou chamá-lo de Adão. O rebatismo não é só pelo pomo-de-adão avantajado que tem esse meu amigo, mas também pelo som. O som grave e forte da palavra Adão que me lembra sua voz. Uma voz de destaque.
Adão lembra também algumas características superlativas desse personagem. O costume que tem de, por exemplo, colocar no aumentativo os nomes de alguns colegas.
— E aí Chicão, beleza? — Assim me cumprimenta toda a manhã. Sinto-me orgulhoso, confesso. Do alto de meus 1,65 metro ser chamado de Chicão é reconfortante, e não deixa de ser uma boa piada.
Adão é um fanfarrão. Ele é assim positivo. O tipo de sujeito que emana o lado bom da vida. Encara com um sorriso as situações mais adversas. Lembro-me muito bem de certa madrugada, quando passeávamos perdidos em São Paulo. Acreditávamos ser possível voltar a pé para casa, cruzar três ou quatro bairros ou coisa que o valha, já um tanto mareados pela cerveja. Lembrei de uma frase predileta de meu pai. "Dois cagões vão longe". Persistimos no erro até vermos o preço inflado do cardápio de um restaurante, que ficava onde acreditávamos ser o meio do caminho: R$ 27,00 por um hambúrguer à moda da casa. Um absurdo, o suficiente para irmos de táxi e ainda comermos mais perto de casa.
— Acho que devemos pegar um táxi — disse ele.
— É, acho que a gente não chega em casa a pé.
Adão não receou até que eu receasse. É, sobretudo, um companheiro.
Assim o conheci companheiro e fanfarrão. Assim o tinha resolvido. A convivência no Curso de Jornalismo Intensivo do Estadão é que o transformou no jornalista. Pouco a pouco olhei para além daquele personagem das festas e noitadas.
Vi um jornalista dedicado.
Reparei que aquelas mangas dobradas estavam mais para arregaçadas. E que o sapato poderia até estar sujo de lama ou do que quer que fosse preciso para que a pauta fosse cumprida. Percebi um olhar sério intermitente entre os sorrisos, de alguém prestes a fazer algo grande. Finalmente li seus textos. Ali encontrei o Adão desses intervalos sérios, o caçador de personagens. Textos bem medidos. Palavras graves e fortes como a sua voz.U
Assinar:
Postar comentários (Atom)
4 comentários:
Muito bom texto Chico! Adão já é memorável!
Dois cagões vão longe. Meu pai dizia isso também.
Realmente muito bom o texto!!...que inveja do "Adão", pois ele tem o prazer de ter a sua companhia...além de ter um texto dedicado só para ele ehhehe.
Boa história, Chico. Isso de andar a esmo por São Paulo não parece mesmo uma boa idéia! Legal, o Adão. Um dia vc explica o porquê do anonimato, né? Fiquei curioso.
Postar um comentário