Iraci Conceição da Silva e João Ferreira de Morais enfrentam a pé o sol e a poeira das 13 horas do domingo. Voltam para casa. Ela, 39 anos, leva no colo o pequeno Lucas Ferreira da Silva de Morais, de oito meses, que dorme embalado pelos passos pesados. Saíram cedo de casa para enfrentar quase duas horas de viagem até o bairro da Barragem – ensaio de civilização mais próximo à antiga vila ferroviária da estação Evangelista de Souza, onde moram.Localizada no extremo sul da capital, a estação já teve escola e mais de 200 moradores. Nos anos 70, quando havia movimento de passageiros, seus habitantes viviam de comércio e serviços. O acesso à cidade era mais fácil. A substituição do transporte ferroviário pelo rodoviário esvaziou gradativamente o vilarejo. Em 1997 o transporte de passageiros encerrou-se de vez. Já era capenga e dependia das condições da ferrovia, que raramente eram favoráveis.
Daquela época só resta hoje a cantina, que foi convertida em bar. Quinze anos atrás, quando Antônio Cezar Leandoro se instalou na estação, o movimento de passageiros era pequeno, mas suficiente manter uma circulação de cerca de 200 pessoas por dia em seu comércio. Hoje ele atende 40 pessoas num dia de bastante movimento, contando com os trabalhadores da ferrovia e habitantes da Área de Preservação Ambiental (APA) do Capivari-Monos, que engloba a estação. São guardas municipais, índios, lavradores e campistas.
Iraci passa por destroços de trilhos e de trens no caminho de casa. Quando chega onde ficam os truqueiros, o clima já virou. Da poeira seca não resta nada. Agora ela respira a neblina úmida da serra do mar. Tenta proteger o peito nu de Lucas, que ainda dorme. "É um sofrimento muito grande, ter que caminhar duas horas para conseguir remédio". Ela fala no meio de uma encruzilhada escondida pelas nuvens. Mal dá para ver a subida íngreme que leva à casa dela. Os truqueiros conversam alto sentados numa pequena roda. Dá mesmo para imaginar que jogam truco. "Truqueiro é quem troca as pastilhas de freio do trem, antes dele descer a serra", explica Jão Ferreira, 57 anos, antes de acompanhar sua esposa para casa.
A conversa e o ritmo de descanso dos trabalhadores é interrompida pela chegada de uma composição. Agora todos vão aos seus postos. As pastilhas novas já estão distribuídas ao longo do trilho para facilitar a troca. No bar do Toninho uma leva de trabalhadores chega. Eles acabaram de "largar" o serviço. Pedro Ribeiro, "só Pedro Ribeiro", é um deles. O menino de 19 anos trabalha há um ano como ajudante geral de linha, pela empreiteira Santa Rosa, contratada da América Latia Logística para a manutenção da linha. Ele mora em Barragem, e vem todo dia para o trabalho duro, mas não reclama. Os R$ 480,00 que ganha somados às horas extras dos domingos lhe são muito bem-vindos.Rodrigo Bruno da Silva Santana, 21 anos, compra duas garrafas de cerveja no bar da estação. Ele trabalha há quatro anos na manutenção da ferrovia. É genro de Toninho, mora com Fabíola Aparecida Dumont, 21 anos. Ela reclama da monotonia que enfrenta no local. Passa os dias cuidando da casinha, que um dia já foi regularmente cedida a seu marido, pela administradora da ferrovia. "Nós pagávamos pouquinho, só para constar no papel", diz Rodrigo.
A América Latina Logística (ALL), concessionária que opera a ferrovia, devolveu as residências à Rede Ferroviária Federal (RFFSA) em 1999. As casas, bem como várias estruturas do pátio da estação Evangelista de Souza, foram vítimas de vandalismo. Aos poucos a mata atlântica da APA vai engolindo as construções depredadas. Das dez que existiam à beira da linha do trem, hoje só podem ser identificadas seis. Quatro delas são habitadas. Rodrigo mora na casa mais próxima à estação. O irmão dele, Luis Fabiano da Silva Santana, e sua mãe, Ana Maria da Silva Santana, 57 anos, moram nas casas mais distantes. "Eu vivo aqui há oito anos, tive que reformar e pintar a casa, que estava pichada", diz ela.
A estação está mais conservada. Foi devolvida para a Rede Ferroviária em 2002. As paredes estão pintadas e não há vidros quebrados. O bar em que Toninho trabalha e vive só foi repassado para o governo em 2004. A ALL mantém hoje uma estrutura mínima de operação no local: três guaritas, duas caixas d'água, duas casas de força, o posto de truqueiros, a casa de comando, um tanque e "quartos diversos" com operacional.Perto das casas, beirando os trilhos de trem, há um pequeno campo de futebol, onde ocorrem os amistosos dos ferroviários e crianças da região. Jean Leandoro já disputou ali várias partidas. Ele gosta de morar em Evangelista de Souza, mas reconhece que se quiser conhecer o mundo, vai ter de se mudar. "Eu queria fazer um curso de informática. Se eu quiser fazer uma faculdade, vou ter que sair daqui", diz ele. A escola em que Jean estuda fica no bairro de Barragem. Em dia de aula uma van o leva para estudar.
A dificuldade das crianças desanima o casal que pretende ter um filho. Rodrigo e Fabíola já pensaram no assunto. Eles conhecem o exemplo de Idalci e João – as longas caminhadas até a Barragem. "Aqui é bom para homem, mas para mulher e criança não dá", diz Fabíola. Ela enfrenta o tédio do dia-a-dia conversando com a sogra ou cuidando da casa. Rodrigo reconhece o marasmo da esposa, mas não pretende sair. Nos quatro anos que está na casinha ferroviária nunca lhe faltou trabalho.
Para as eventuais emergências existe o posto da Guarda Municipal Ambiental, instalado em um dos escritórios da estação. Ali há sempre três guardas de prontidão, 24h por dia. "Quando alguém aqui passa mal, ou tem acidente, a guarda leva para Parelheiros", diz Rodrigo. O posto foi instalado na região quando a APA foi criada, em 2001. Há dois anos, uma nova unidade foi construída na APA, mais próxima a Parelheiros. Para lá foi transferida a sede. "Diminuímos o efetivo, mas continuamos dando plantão", explica o inspetor chefe regional da Guarda, Calos Bento da Silva.
Desde que a Guarda Municipal Ambiental foi para a região, o vandalismo diminui. "O local era ponto de encontro para usuários de drogas e local para a desova de corpos", diz Bento. Há tempos a violência não é uma questão para os moradores do local. Existe sim uma ameaça constante de acidentes ferroviários. No início do ano uma campista morreu depois de cair nos trilhos quando pegava "carona" pendurada no trem de carga.
Outro medo tem a ver com a expulsão dos moradores. Com exceção de Toninho, que diz pagar aluguel ainda hoje para a Rede Ferroviária, os demais habitantes da vila ocupam irregularmente as casas. Houve rumores de que seriam retirados para abrir caminho às obras do Rodoanel. As obras, segundo a Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, passam por outra APA, a do Bororé-Colônia.
A secretaria tem um plano para o incentivo do turismo na Estação Evangelista de Souza. Pelo projeto, as construções em volta da estação seriam reformadas e um trem turístico – uma Maria Fumaça reformada – voltaria a circular no trecho, fazendo um percurso de 11 km, que ligaria o bairro de Colônia Paulista, no distrito de Parelheiros ao bairro Evangelista de Souza. A administração do passeio ficaria sob o encargo da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF).
A situação da Rede Ferroviária Federal, no entanto, não traz alento aos moradores. Extinta em 16 de maio, a rede hoje mantém uma estrutura fantasma, com seus funcionários repassados para a Empresa de Engenharia, Construções e Ferrovias S.A. (Valec), também estatal.
Enquanto espera o movimento melhorar, Toninho do bar procura aproveitar a ampla paisagem da APA e relembrar o tempo em que trabalhava na cidade. Nos descampados dá suas tacadas de golf. Os oito tacos e nove bolas, conquistados na época em que trabalhava como caddy, são troféus na parede de seu minúsculo bar, logo acima das caixas de cerveja empilhadas e abaixo de um arco e flecha provavelmente doado pelos índios guaranis da região.
Mais fotos em www.flickr.com/photos/paulojustus
Um comentário:
Cara, muito massa. Faltou só a foto do caddy aqui no final...
Postar um comentário