O novo livro-reportagem do jornalista peruano Santiago Roncagliolo rompe um silêncio de 15 anos desde a prisão de Abimael Guzmán, um dos mais sanguinolentos terroristas da América Latina. La Cuarta Espada (A Quarta Espada, ainda sem título ainda para o português), retrata a vida do líder do grupo guerrilheiro peruano Sendero Luminoso. Lançado nos países hispânicos no fim de setembro, o livro deve chegar ao Brasil no ano que vem.
Considerado por seus seguidores como a quarta espada do comunismo internacional — depois de Lênin, Stalin e Mao Tse Tung — Guzmán foi o responsável por 40 mil das 70 mil mortes no confronto entre o Sendero Luminoso e o governo do Peru nos anos 80 e 90. Os métodos brutais de luta da guerrilha, segundo Roncagliolo, lançaram as bases de uma ditadura nos anos posteriores à captura de Guzmán, realizada em 1992. "Os militares defendiam suas monstruosidades em nome de um governo civil legitimado de alguma maneira pelo terrorismo do Sendero Luminoso".
Desde sua prisão, Guzmán não dá entrevistas. A base da marinha de El Callao em que está detido junto com outros seis prisioneiros proíbe o contato com jornalistas. Foi com essa dificuldade que Roncagliolo desembarcou no Peru três anos atrás, com a missão de fazer uma reportagem para o diário espanhol El País, no qual trabalha. Esse foi o estopim para o livro. A idéia de se fazer um livro-reportagem já estava em gestação quando ele produziu seu romance político Abril Vermelho. "Durante a pesquisa para aquele livro encontrei histórias muito mais interessantes na realidade do que na ficção. Só me faltava um tema", diz.
Impossibilitado do contato direto com Guzmán, Roncagliolo procurou os familiares do terrorista, carcereiros, policiais, agentes do serviço de inteligência, professores que lecionaram com ele e antigos generais do Sendero Luminoso espalhados pelo mundo. "Tratei de buscar todos que tiveram contato pessoal com Abimael. Existem pessoas do Sendero Luminoso na Suécia e Bélgica, além dos que estão nas prisões", afirma. Trata-se de um rol pequeno de pessoas, já que nos últimos 30 anos, Guzmán esteve durante 15 anos preso e nos outros 15 anos vivendo como clandestino. A partir desses pontos de vista ele foi reconstruindo Guzmán. "Esse é o primeiro livro que se faz com informações dos terroristas, sobre eles falando como eram eles enquanto se dedicavam à luta armada", diz Santiago. A obra procura explicar os motivos por que esses terroristas entraram na guerrilha e como eles se relacionavam entre si dentro do Sendero Luminoso.
La Cuarta Espada é o primeiro livro-reportagem de Santiago Roncagliolo. "É a primeira vez que eu trabalho com fotografia dos personagens. Lidar com uma realidade tão sangrenta tem sido uma experiência muito enriquecedora", diz. Segundo o autor, são justamente os livros reportagens e crônicas jornalísticas os elementos de renovação da literatura peruana, que normalmente estaria dividida em dois séqüitos. O primeiro ligado à direita de Mario Vargas Llosa faria parte dos ideários urbanos e liberais de Lima. O segundo tem relação com o menos notório escritor José Maria Arguedas, socialista rural da esquerda que se suicidou em 1969, sem conhecer o Sendero Luminoso.
Santiago, 32 anos, não se classifica em nenhum dos lados, apesar de seus pais terem origem na esquerda peruana. Quando criança ele viveu como exilado no México, e só retornou ao Peru em meados dos anos 80. Vive há sete anos na Espanha e se compreende como alguém que acredita num meio termo — na comunhão da igualdade desejada pela esquerda com a manutenção da liberdade pregada pela direita. A distância e a perspectiva de imigrante lhe deram mais elementos para trabalhar como escritor e se compreender como latino-americano.
Um burocrata da morte
O que torna Abimael Guzmán interessante é como o terrorista conseguiu reunir um exército em torno de sua causa sem contar com infra-estrutura, diz Santiago Roncagliolo, escritor do livro-reportagem sobre o líder do Sendero Luminoso, La Cuarta Espada. Guzmán comandava as mortes de dentro de seu escritório, sem contar com apoio de outros países, recursos ou muitas armas. "Para mim foi interessante entrar na cabeça do monstro, do assassino. Tentar pensar como ele chega a ser o que é. Ver como foi seu desenvolvimento ideológico e militar", diz.
Santiago o considera um homem diferente de Che Guevara ou do modelo de revolucionário latino americano habitual, porque não estava no campo de batalha e não era alguém que movia as massas. "Ele ficava num escritório, recebia informes e emitia ordens e planejava campanhas. Era quase que um burocrata da morte. Articulava muito bem a violência e fazia tudo de dentro de seu escritório", diz o autor.
Uma das dificuldades de se escrever o livro foi o posicionamento ideológico complexo do professor universitário que vai aprender guerrilha na China de Mao Tse Tung. "Abimael Guzmán considera a si mesmo e seus seguidores como moralmente superiores. Isso o diferencia de uma pessoa como Vladmirio Montesinos, que só queria mais poder e mais dinheiro", diz Santiago.
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Um comentário:
Está muito bom. Imagino a adrenalina que foi entrevistar o cara em espanhol.
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