Um babaca encosta o carro no meio da rua, num aprazível domingo à tarde. A rua é tranquila, tem um boteco na esquina e pessoas despreocupadas. Mas a cena muda quando o cara desce em nossa direção, bêbado.
Burburinhos percorrem o bar, enquanto olhares tensos observam o bêbado beliscar e incomodar todos os comensais de uma mesa próxima. Ao lado, um senhor de barbas e cabelos brancos, bermuda e chinelos (um Papai Noel tropical) acompanha tudo com uma revolta especial. "Por isso eu votei na Marta, esse viado aí só pode ter votado no Kassab", diz, como ventríloquo, mordendo os dentes de raiva.
O babaca continua, mais bêbado que nunca. Lança olhares desafiadores, e caminha para o nosso lado ajeitando as calças, como quem se prepara para uma briga. Dá meia volta e deixa todos irritados. Há uma movimentação diferente, a cerveja esquenta nos copos junto com os temperamentos das pessoas.
De repente uma notícia entre suspiros. "Chamaram a polícia", a tensão dá lugar a sorrisos. A expectativa agora é que o cara não vá, mas que fique o tempo suficiente para ser preso, ou no mínimo levar uma multa. O careca, dono do bar, que estava bebendo com o Papai Noel já enxugou três vezes o suor da testa, enquanto tenta convencer o sujeito a tirar o carro do meio da rua. A essa altura uns dois ou três acidentes já se prenunciavam, a cada carro que entrava mais rápido, ou pedestre que passava desavisado.
Por fim o sujeito vai, incólume. O Papai Noel esmurra a mesa, e retoma a cerveja. Descubro em seguida que ele está tão bêbado quanto o sujeito do carro. Fala sobre as eleições, despeja mais e mais frases homofóbicas e por fim me conta a sua história. Tratava-se simplesmente disso, um bêbado com história.
Deleita-se ao saber que só tem jornalistas na mesa ao lado.
-- Vocês são jornalistas, então devem saber disso. Eu trabalhei num programa nuclear da marinha, ali na Dr. Arnaldo, que aquele viado do Collor encerrou, por causa dos americanos. É verdade, não é verdade? -- E olha para o mais velho, o sujeito que tinha chamado a polícia, que assente.
-- Viu como eu não estou mentindo? Eu cumprimentei o Sarney quando eles inauguraram o programa, em 1986. Me aposentei em 1996, a gente se aposenta rápido por causa da insalubridade.
As respostas eram ora pequenos assentimentos com a cabeça, ora monossílabos irritados, semancóis.
-- Vocês pesquisem por que eles acabaram com o programa. Foi por causa dos americanos! Olha o Brasil não deve nada para ninguém em tecnologia nuclerar. Eles acabaram com o laboratório ali na Dr. Arnaldo porque está há 200 milhas da costa, e os submarinos americanos poderiam detectar. Podem pesquisar e vão ver que não estou mentindo. Não é verdade -- e dava aquela olhada para o mais experiente, que a esta altura olhava o horizonte, o local vazio do carro, que seria palco da grande apreensão.
-- O meu nome? Sherlock, só te digo isso. Não posso dizer mais nada porque tenho um contrato para toda a vida! E riu.
Fomos embora, deixando o Papai Noel Sherlock com sua embriaguez atômica.
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