Desço do ônibus antes do tempo. Uma mocinha de rosto fino e boca constantemente aberta pediu para o motorista abrir a porta antes do ponto. O buzinaço dos carros e o engarrafamento natural da Av. Paulista não deixam contra-argumentos ao condutor. Saímos, mais da metade dos passageiros do ônibus. À minha frente uma mulher com terno marrom e tenis laranja, sem meia. Só percebi a sua idade quando mostrou a canela enrugada e cheia de pintas, ao cruzar as pernas.
Aquele movimento incessante na calçada. Sinal de pedestres vermelho. Uma mulher com um rosto bonito e pele feia olha para trás. Tem uma bunda magnífica. Uma chinesa alta e magra ao meu lado parece que nota meu olhar indiscreto e lança-se para frente, como que para barrar minha visão. Cruzo a paulista, seguindo sempre a bunda. Reparo um celular saltando pelo bolso daquela calça social preta apertada. Meus olhos abandonam o objetivo rebolante em frente a uma esfiharia. Um cheiro gorduroso e azedo, que tiram o apetite de qualquer um. Mais um cruzamento.
No outro lado da rua um homem limpa relógios falsificados com um espanador, como que para dar mais valor à mercadoria. Um japonês meio gordo vem em minha direção. Um bujãozinho. Continuo até a esquina. Duas empregadas domésticas me olham. Havaianas engorduradas. Um casalzinho jovem, branco e burguês para do meu lado. A sandália da loirinha riquinha se contrasta com a das domésticas. Atravesso a rua. Passo pela igreja, um menino gordo vem me pedir esmola. Não, está bem vestido. Só repara no cachorro de um senhor que está atrás de mim. Um cachorro peludo e preto, uma espécie de maltês negro e grande. Em frente à igreja uma senhora de olhar triste vende flores. Mais adiante, quase chegando no Extra um senhor, sempre o mesmo, continua reformando cadeiras. Ele martela a fita de plástico cruzada, que trançado faz o assento, imitando aqueles trançados de palha ou vime.
Cruzo o estacionamento do Extra. desço pelo lado, para pegar calçadas com menos movimento. A rua é pequena. Atravesso pelo meio dos carros parados. Na frente do edifício Cidade Vecchia, portões grossos e um lindo jardim, uma ratazana cruza a calçada na minha frente. Entra pela fresta de um desses tampões de concreto que compõe as calçadas de São Paulo. Estou mais próximo de casa. No fim da pequena rua congestionada viro à esquerda. Uma japonesa sorridente passa por mim. Subo até a Treze de Maio. Um menino em seus 16 anos, cabelo raspado, óculos e mochila nas costas espera. Olha para o trânsito como se estivesse esperando alguém.
Rua Papa Pio XI vazia. O mendigo que habita a entrada do consultório odontológico da esquina não está ali. Tem a cara do Seu Jorge. Desço até o apartamento. Aqui é o Chico do 102. O porteiro, com seu sotaque nordestino atende e abre o portãozinho. São 18h26 e as luzezinhas de natal, que enfeitam o teto da passagem na porta do edifício já estão acesas.
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