O cabelo estava grande, mas ele insistia em dizer que tinha cortado. Às voltas com o espelhinho, tentando me mostrar o ótimo serviço que tinha feito. Eu ainda estava na cadeira de cabeleireiro, um pé no chão, disposto a sair ou a chutar a bunda desse barbeiro vagabundo. O lado direito mais curto que o esquerdo, o pé intacto. Nunca fui num lugar tão vagabundo.
Pablo, o cabeleireiro, gaguejava. Num portunhol engasgado ele insistia em dizer que tinha terminado. Perguntei se ele tinha máquina.
-- Sim, que número bocê ussa?
-- Passe a quatro.
-- No tenho. Pode ser a dos?
-- Não, não pode.
-- Eu corto mais curto então.
Eu devia ter pedido a "dos". O meu arrependimento foi gradativo, ultrapassou a sessão da tarde, avançou a malhação e culminou no SP TV. Meus pais, cansados, anestesiados de uma viagem longa, compras e caminhadas, agonizavam nas cadeirinhas do salão. Pablo insistia, tesouradas incertas, fugidias, iam esculpindo toscamente meu cabelo.
Logo na entrada tive indícios que aquele lugar não ia dar certo. O preço, vinte reais abusivos pelo naipe do local. A porta de vidro trancada, que acompanhava a janela/vitrine com persianas igualmente fechadas. Quem me abriu foi uma manicure mal-educada.
-- Quem vai te atender é o moço ali.
Pablo era como uma criança gorda, a idade se notava pelos longos cabelos grisalhos. A experiência, pelo dedo mutilado.
-- Bocê é de Curitiba, tive uma fábrica de blocos de de motor lá -- disse-me enquanto lavava meus cabelos, com a unha deformada massageando meu couro cabeludo.
O fato é que ao fim, o cabelo estava horrível. O pagamento doeu na alma. A revolta me deixou calado, pelo resto das duas horas que durou o corte de cabelo, depois daquele primeiros trinta minutos quando ele insistiu em me mostrar que tinha trabalhado.
-- Bocê me pegou, é. Tava fazendo o corte bolte logo -- confessou, desavergonhadamente, antes da minha partida.
Deu-me um calendarinho, espécie de prêmio de consolação ou símbolo da paz. Fez questão de escolher o que tinha a foto das cataratas do Iguaçu no topo. Não volto lá nunca mais.