Parati vai se tornando Paraty à medida em que saímos de São Paulo. Conforme avançamos no caminho as placas vão admitindo a grafia original da cidade. As rodovias tornam-se mais estreitas e sinuosas. Quando entramos no estado do Rio de Janeiro, os olhos de gato somem e as faixas se tornam irregulares. Nos aproximamos do estado de natureza, hobbesiano e exuberante.
No domingo a entrada da cidade está tranquila. A cidade antiga se revela logo que chegamos. Algumas construções novas que imitam o estilo colonial já denunciam o que nos espera. Alguns traços de cidade pequena e arquitetura ordinária ainda persistem, é verdade. Ao longo da avenida principal vamos percebendo uma gradação, saindo da cidade pequena, fluminense, barata e contemporânea rumo ao passado. Seguimos a avenida principal até encontrarmos com os caminhos de pedras irregulares. Aqueles que impedem os saltos na Flip.
Nossa casa está na Rua do Comércio, a principal. A casa é também a principal, a única com eira e beira de nosso bloco. Inicialmente foi armazém, depois reformada tornou-se pousada e agora abriga eventos. Quando entramos pela porta azul que tem uma pequena cruz no alto, percebemos onde estamos. A ante-sala escura e com uma parede que não chega até o teto não consegue esconder a grandeza da sala principal. Ao fundo, olhando reto em direção à entrada a grande mesa de jantar está bem iluminada, ladeada por uma grande janela. A escada principal esconde os lustres e ventiladores que estão junto à mesa. Uma coisa é certa, é tudo muito grande e belo.
Vários móveis de épocas antigas e pequenos objetos nunca mais usados estão em todos os lugares. Uma espécie de telégrafo, vários espelhos de todos os tamanhos, tudo incrivelmente limpo e inodoro. Minha idéia de antiguidade relacionada a cheiro de mofo mudou depois dessa experiência. Foram três dias e duas noites vivendo nesse paraíso. Eram várias casas, uma espécie de vilinha. Treze quartos, três cozinhas, sala de música e estar. Os quartos tinham a peculiaridade de terem separados o lavabo e o banheiro. Em nenhum lugar eles eram combinados. Talvez denunciassem uma época em que eram necessariamente separados.
Já conhecia Paraty, já tive a oportunidade de estar lá na Flip. O cansaço não me permitiu de mais explorações. A chuva não me permitiu maiores fotos. Eu me permiti um descanço. Cansei. Ainda guardo o estresse de São Paulo é difícil distender. É difícil parar de pensar nos detalhes insignificantes da vida, na grafia das palavras, na estrutura do texto. É certo que o que fica não são essas coisas. As contradições aos poucos desaparecem. O armazém é chamado de casa ou pousada. Os objetos que ficarem, as poucas e austeras coisas que eu deixar contarão histórias de outras pessoas. Tão deslocadas e preocupadas quanto estive lá em Paraty. Sequestradores de interpretações, de belas imagens e de filosofias.
Queria viver lá, como pescador e cuidador dessas casas. Como o Bitelo, o nosso amigo caseiro. Ou o Serginho, já subalterno do Bitelão. Queria fugir só. Só queria viver nessa ideação. Na praia do Sono pensei várias coisas. Não tive sono não. Desisti de morar em Paraty quando entrei no açougue do mercado. Um fedor completo mesclado a uma desorganização digna do Rio de Janeiro. Eram três balcões: frios, carniceria (eu uso o espanhol aqui porque casa com el olor) e padaria. Cada um com um rolinho de senhas de papel e uma fila que se formava atrás delas. Um bafo quente insuportável. Algo que me lembrou muito o lado ruim da cidade maravilhosa. A paciência, por sorte, sempre está em alta quando vou pra lá. Mas não se suporta isso por toda uma vida.
www.flickr.com.br/photos/paulojustus
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Um comentário:
Dae Chico! Voltou pra Parati então, que massa! O texto tá muito bom, aliás, todos aqui estão de parar pra ler. Saudades de um boa conversa, cara. Abraço!
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