terça-feira, 25 de setembro de 2007

Um relatório árido

Uma das atividades do Curso Estado de Jornalismo é fazer um relatório, no dia correspondente ao seu seu número foca. No meu caso, riam, foi dia 24. Posto o produto formal e não muito elaborado de meu trabalho:
 
RELATÓRIO FOCA24

Na manhã desta segunda-feira, a 18ª turma do Curso de Jornalismo Intensivo se reuniu na escadaria da Catedral da Sé. Às 8h30 boa parte da turma já se encontrava lá, faltando apenas dois ou três alunos, que chegaram dentro dos quinze minutos de atraso tolerados pelo professor Luiz Carlos Ramos. Não houve falta.

Luiz Carlos entregou as análises dos textos produzidos na aula anterior. Todos, segundo ele, variaram entre bom e muito bom. Depois de entregues as matérias, ele descreveu a proposta do dia. Os focas deveriam fazer uma matéria sobre o centro de São Paulo, "a verdadeira São Paulo que não a da Avenida Paulista".

Em seguida o professor levou o grupo por um passeio pelo Centro. O roteiro incluiu a Praça da Sé, Pátio do Colégio, Bovespa e Edifício Martinelli até a esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João. Em frente à Secretaria de Justiça a turma encontrou uma manifestação do MST. A partir daí Luiz Carlos deixou livre para quem quisesse já cobrir a movimentação ou buscar outras pautas.

A maioria seguiu o professor pela Avenida São João, até a Avenida Ipiranga quando ele se despediu e seguiu seu rumo. Eram cerca de 10h30 e começou a chover. A partir daí houve uma dispersão dos focas em pequenos grupos.

Navegar impreciso

Dia 22 de setembro é dia do Rio Tietê. O rio que há 60 anos abastecia a cidade de São Paulo está morto. Suas margens foram canalizadas e asfaltadas. Tornaram-se Marginais. O esgoto da megalópole hoje corre em seu leito. É levado por dezenas de outros córregos também sepultos, imperceptíveis não fossem as freqüentes enchentes da cidade.

Em comemoração ao dia do rio uma empresa, organizada pelo Instituto Navega São Paulo, pretende levar um grupo de jornalistas e ambientalistas por um pequeno passeio pelo rio. O barco branco contrasta-se com os excrementos pretos que dão o tom da água do Tietê. Imponente, com três andares de altura, a embarcação dá a distância necessária para tornar o passeio menos impactante.

No primeiro andar, uma sala climatizada, janelas fechadas com os toldos brancos e uma apresentação e PowerPoint estão prontas. No segundo piso, um pequeno coquetel recepciona os visitantes. Ali o calor já se faz presente e as janelas estão descobertas.

É dali que se pode ver o homem que toma banho e lava suas roupas num dos dutos que abastece o rio. No concreto, ao sol, estão estendidas duas camisetas pretas, uma calça jeans, um par de meias e tênis pretos. Ao lado estão também um isqueiro, um xampu, um barbeador e um sabonete. O homem de bermuda se utiliza de um balde verde para se enxaguar.

Enquanto no barco os presentes no evento comem uma banana, um sanduíche natural devidamente embalado, ou vêem a gradação da água do rio Tietê — da nascente límpida, passando pelo negro trecho paulistano, até a foz onde torna a ficar translúcida —, o banhista se esgueira pelo túnel. Aperta-se contra a manilha e tira o calção. Nu ele olha para o barco, mas não interrompe o enxágüe.

No terceiro andar, que é um terraço, estão os cinegrafistas, fotógrafos e políticos. A vereadora Soninha também. Veio de bicicleta, politicamente correta no dia mundial sem carro — o capacete pendurado no pescoço não deixa dúvidas disso. Junto com ela cerca de quarenta jornalistas pegaram o ônibus na frente da UniSantana, enfrentaram o trânsito das marginais e foram até o barco, que estava a 600 metros de distância.

Do "terraço" se escuta o trânsito das marginais e se sente o sol na nuca. O vento interrompe o cheiro do rio. Fedor que lá embaixo, na hora do embarque, embrulha o estômago dos visitantes. Talvez seja por isso que a maioria deles esteja nesse local, não por acaso acompanhados dos fotógrafos e cinegrafistas.

Os grandes motores da embarcação, cujos barulhos lembram os de um ferryboat, começam a funcionar e abafam um pouco a concorrência de seus irmãos menores que trafegam pelas marginais. Os organizadores do INS convidam todos a descer e ouvir uma palestra sobre a empresa. Lá João Mogi (peguei o nome de ouvido), um japonês presidente do INS e de uma empresa contratada para o aprofundamento da calha do rio Tietê, conta como pretende ainda ver o rio revitalizado e apto ao transporte hidroviário. Antes, o "mestre de cerimônias" integrante do INS passa algumas instruções, entre elas a de que "em hipótese alguma a água [do rio] pode entrar em contato com as pessoas".

Com as janelas fechadas começa o passeio. A palestra de Mogi não dura muito. A curiosidade de se olhar a água que em volta do barco e as outras embarcações (canoas, botes e caiaques) que também participam do dia comemorativo dispersa os palestristas. Nem mesmo o ar condicionado segura os visitantes.  Sozinho, Mogi segue o fluxo de gente. A maioria sobe ao terraço, onde é possível aproveitar a vista, ser visto, fugir do cheiro e curtir a viagem.

O trajeto é pequeno e ninguém é tolo o suficiente para querer algum dia fazê-lo de novo. O barco sai da altura da ponte das Bandeiras, passa por baixo da via e segue até a altura do Anhembi, onde tenta fazer a volta. Tenta mais de uma vez, porque na primeira quase vira a canoa movida por cinco ambientalistas mais propensos a aventuras.

Eles são da turma que remou e que não quis se cobrir com máscaras de gás, capas de chuva e botas de borracha. Esses são os que estão nos botes infláveis. São cinco botes com cinco pessoas, quatro remando e um fotografando ou filmando. Esses estão mais protegidos.

Em terra, o grupo que acompanha aplaude, fotografa e filma, da ponte e das margens do rio. Margens que acumulam uma pequena caatinga que se forma entre o concreto e a água. Mato, pó e lixo.

Tudo muito diferente da escadinha montada para o acesso ao barco. Ela, como o barco, também é branca. Também foi colocada ali às pressas — a cal escorrida pelo concreto denuncia isso. O incômodo de um dos anfitriões, o banhista, também dá indícios de que a visita foi inoportuna e surpresa.

Findo o passeio, a organização avisa aos jornalistas que haverá mais um passeio, igual ao anterior antes da volta. Ressaltam que o ônibus ainda vai demorar outra meia hora antes de conseguir chegar ao local. Note-se aqui que o ônibus com o qual esse pessoal chegou ao barco foi improvisado, já que o original ficara preso no trânsito, em pleno dia mundial sem carro. Mesmo assim a maioria sai.

O cheiro é insuportável, dá nó no estômago. O vapor de merda que se acumula no nariz, impregna-se nas roupas e que escorre pelo suor é demais. Quando o grupo de canoístas quase virou, quem estava ali na beira do primeiro andar pode ver como eles habilmente remavam entre os dejetos, entre os pedaços de fezes que formam a superfície do rio. Volta e meia, pelo revolver da água causado pelos grandes motores, um ou outro lixo mais elaborado, pneus inclusive, apareciam à superfície.

Por isso a maioria deixa o barco. Esperam os canoístas subirem, pacientemente, para não correrem o risco de entrar em contato com a água. Só à beira da Marginal é que percebem o porquê do ônibus: os carros. É simplesmente impossível atravessar a marginal a pé. O fluxo intermitente justifica todas aquelas barraquinhas, trilhos e fogueiras nas faixas de terra que separam as pistas: as pessoas simplesmente não conseguem atravessar a pista entre 6h e 20h.

No alto da ponte um ex-sindicalista e neo-ambientalista propaga alguns gritos de ordem híbridos. São brados ecológicos na rima e entonação metalúrgica. Do alto de seu caminhão de som reclama dos motoristas que não deixaram seus carros em casa para sofrerem como simples pedestres. Reclama das guerras e dos líderes. "PAZ e AMOR!", anuncia um colega seu de outro caminhão de som ainda maior. No ritmo do Axé e com a faixa "Mega Feirão de Veículos".

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A grande discussão

Dora Incontri é doutora em Educação. E é sobre Educação (com o Ezão) que nos debruçamos em nossa primeira aula de filosofia. Algumas generalizações são necessárias, adverte ela logo de começo e parte para a Grécia, com a convicção maiêutica de uma socrática assídua. Explico: maiêutica era o método que Sócrates utilizava para filosofar e ensinar sua filosofia. Com ela o filósofo extraía conhecimento das pessoas mais ordinárias daqueles tempos, como escravos e mulheres.
 
No decorrer da explanação, uma intromissão intermitente insistia em pensar a maioria dos homens como ineptos. O mesmo corte no raciocínio nos dava a entender que, a não ser que nos tornássemos Einstens (vá lá, que nós, pequenos jornalistas, não nos tornássemos Cacos Barcelos ou outros exemplos mais elaborados de profissinais), cairíamos na perigosa média medíocre -- uma tal "caixinha do faz tudo", que poderei discorrer depois.
 
Felizmente, algumas caras viradas e conversas paralelas depois, não chegamos a conclusão alguma. Atingi o meu objetivo, disse nossa professora triunfante. Filosofia é isso, discussão, voz alta e caras feias (blasé). Tá certo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Uma foca dos anos 50

Ontem tivemos a oportunidade de conhecer Cecília Thompson, a nona jornalista do Estadão, com 52 anos de carreira jornalística e uma jovialidade de dar inveja a muitas meninas de 20 anos que andam por aí. Atualmente ela é da ouvidoria do jornal. Seu trabalho é importante para a rotina do jornal. Recebe cerca de 200 e-mails por dia e, pasmem, resopnde a todos, junto com uma auxiliar. Faz isso buscando a resposta às reivindicações da população junto com as autoridades ou empresas responsáveis. Segundo ela, 90% das questões são resolvidas.
 
Ela contou preciosidades sobre a época de chumbo e sobre antes. "Na primeira vez que entrei na redação ouvia aquele barulho de centenas de máquinas de escrever e aquele cheiro de chumbo, da linotipo. Parecia que eu estava vendo um trem descarrilado da Estação Central, mas eu achava tudo lindo", afirma.
 
Cecília contou várias histórias, sempre revelando a paixão pela profissão. Ela trabalhou por muito tempo como repórter, começou na Última Hora de Samuel Weiner, passou pelo Estadão, ficou 10 anos "ganhando dinheiro", na Olivetti. Quando Claudio Abramo a convidou para voltar ao jornalismo ela não hesitou, "mesmo com um salário 40% inferior ao que ganhava na Olivetti", atesta.
 
Emocionou-se com os 31 "jovens jornalistas" e se colocou à disposição do grupo para futuros auxílios. "Depois da época da ditadura os novos repórteres pareciam tão apáticos, vieram tão conformados", lembrou, dando a entender que via alguma diferença nas turmas atuais. Sentada o tempo todo, depois de deixar toda a turma quieta como que em prostração, ela revelou um pouco dos desafios que enfrentou. O preconceito por ter sido, em sua época uma mulher ativa, jornalista e divorciada 4 vezes. Mostrou-se uma ecologista e pacifista. "Minhas maiores bandeiras são pela reciclagem e pela paz".
 
No fim da palestra foi possível ver em alguns dos focas um brilho diferente nos olhos. Brilho que começou com deslumbramento e acabou em comoção.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Novas de um foca

Vou pausar um pouco a pesquisa sobre os faxinais por um tempo. Desde sexta-feira passada (31/08) me encontro em São Paulo para fazer o Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Estado de S. Paulo. Algo que eu tento traduzir para os familiares e amigos fora da área de comunicação como um trainee, mas que é melhor traduzido como um curso de extensão universitária (certificado pela Universidade de Navarra) que inclui experiência prática na redação das empresas do Grupo Estado.
 
Desde ontem estou convivendo trinta brilhantes jovens jornalistas. Ainda estou me aclimatando à paulicéia desvairada, tentando acostumar os pulmões e o peito para encarar o batente por aqui. A evolução tem sido melhor do que eu esperava, a turma receptiva, a pensão que encontrei boa, tudo dentro dos conformes -- exceto por um banho de água da chuva, conferido por uma daquelas camionetonas estilo Pajero, que um otário me deu, ao passar rente à calçada num domingo chuvoso. 
 
O desafio agora é fazer uma matéria do metrô de São Paulo, que completou recentemente 35 anos. Ultimamente o sistema tem enfrentado adversidades, tanto pelo aumento do número de usuários, devido, em parte, ao bilhete único, quanto por greves de metroviários e pela cratera que se abriu na construção da linha 4, no ano passado. Notícias boas eles também têm. A assessoria tem uma farta fonte de matérias com as exposições artísticas e bibliotecas dentro das estações, além do recente censo metroviário e dos avanços na construção da própria linha 4 (amarela). O desafio agora é trazer algo novo, ou algo velho com um enfoque diferente. Vejo-me confuso. Assim que tiver um esboço de texto publico aqui. Por enquanto busco a pauta.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Um conto de liberdade

Hesitou por um momento, mas pegou o telefone.
— Alô, a Fernanda por gentileza?
— Ela não está, está na academia, quem gostaria?
— Não tem problema, senhora, eu ligo mais tarde.
Cleverson desliga o telefone. Fernanda era o nome de sua irmã, sempre se pegava perguntando por ela em números estranhos. Mas sabia que naquela cidadezinha do interior só havia uma academia na porta da qual uma Fernanda chorava.
A bolsa rasgada dava indício de que ela lutou por seus pertences. Não conseguiu que se salvassem o celular e a carteira. Cleverson, atento para os detalhes recolhe do chão o batom, o líquido de limpeza das lentes de contato e um pedaço de chocolate parcialmente consumido, envolto pela embalagem amassada.
— Toma aqui, fique calma — disse confiante, sem negar a satisfação de conseguir contato com a beleza daquela menina, perto dos 19 anos.
Ela reteve o choro, respirou fundo, e guardou como pode o que Cleverson lhe ofereceu.
— O que aconteceu? — perguntou, afastando-se um pouco, como que para deixá-la mais confortável.
— Ele levou tudo, rasgou minha bolsa e... — Sem terminar a menina desaba em lágrimas novamente.
— Tente ficar calma, qual é seu nome?
— Fernanda.
— Ok, Fernanda, meu nome é Thiago. Fique aqui que eu vou chamar a polícia.
Omitindo seu verdadeiro nome, Cleverson ponderou, teria mais chance com essa filha da classe média. Tinha verdadeiro horror ao seu nome, sabia que ele denunciava sua condição social, sabia ainda que o sucesso da irmã Fernanda se devia ao nome mais usual que possuía. Se eu me chamasse Roberto ou José, talvez teria sorte diferente, pensava freqüentemente. Mas o destino quis que se chamasse Cleverson e vivesse do seqüestro. Sim, logo depois de confortar Fernanda, ligou para o último número discado de seu celular: CASA.
— Alô, a Fernanda por gentileza?
— Não tem problema, senhora, eu ligo mais tarde.
Ao voltar do orelhão, a menina ainda está lá, parada. Cleverson acena discretamente para o comparsa que a estava vigiando. O plano está saindo conforme combinado, parece ter conquistado a confiança da garota.
— Pronto, já liguei para a polícia, eles pediram para eu te levar até o posto da praça central, para fazer o boletim de ocorrência. Vamos?
— Mas eu tenho que avisar a minha mãe, você pode me emprestar seu cartão?
— Temos que nos apressar, eles podem já ter encontrado seu celular e carteira. Você pode ligar de lá. Vamos?
— Não sei se deveria...
Talvez o plano não estivesse funcionando tão bem, pensou Cleverson. Percebe que estão sozinhos e recorre ao projeto alternativo. Dá um passo em direção a ela, ergue a blusa e mostra sua 9mm cromada apertada contra a barriga.
— Vamos! — ordenou.
Fernanda empalidece. Cleverson acompanha seus olhos procurando socorro e só encontrando seu comparsa parado junto ao poste. No outro lado da rua um ômega preto a aguarda com motor ligado. Ela não tenta pedir socorro, sabe do que se trata. Deve ser forte essa aí, calculou Cleverson, enquanto sua vítima prosseguia seu caminho para o carro em silêncio, como o animal que segue ao matadouro.
Cleverson abre a porta e conduz Fernanda para o banco de trás. Ao seu lado está o mesmo menino que minutos antes a havia roubado. Agora, já despojado do uniforme de trombadinha, transveste-se em roupas e acessórios mais nobres, uma blusa de toca, óculos escuros e fone nos ouvidos. Quem assume o volante é o homem do poste. Cleverson senta no banco do carona, ajusta o retrovisor para si e fica com os olhos atentos na fronte de Fernanda.
A casa aonde chegam é escura e úmida, num dos bairros mais pobres daquele pequeno município. Em quantos quartos como esse o mesmo Cléverson já tinha passado? Não só como cativeiro mas também como lugar cativo esses pequenos cômodos de madeira tinham dominado toda sua vida. Em um desses amontoou-se com seis irmãos, incluindo a Fernanda, por mais de 10 anos.
Ele retirou o capuz de Fernanda e apresentou os cômodos:
— Aqui está o colchão, na jarra tem água limpa. Logo traremos comida. Quando quiser ir ao banheiro bata na porta. Não tente gritar ou fugir senão nós te matamos.
Em silêncio, a garota fita fixamente os olhos de Cleverson. Ele nunca tinha observado uma reação como essas. Normalmente suas vítimas choravam cabisbaixas, razão pela qual deixava por horas o rádio ligado num volume alto. Por um momento esqueceu que se tratava de um seqüestro. Quedou-se imaginando como seria a vida ao lado de uma mulher como aquela.
No outro cômodo, seus comparsas copiavam os telefones mais importantes retidos no celular de Fernanda. Em instantes a bateria acabaria e tudo poderia ser perdido. No topo da lista, em caligrafia infantil, figurava um substantivo: CASA.
Notando a distração de seus colegas e não se contendo diante do olhar fixo da vítima, Cléverson avança. Beija e estranhamente é correspondido num misto de lágrimas e lascívia. Quando percebe que saiu do estado de transe em que se encontrava já está sem camiseta e com Fernanda nua à sua frente, deitada no colchão. A agitação do sexo transforma o pequeno quarto em sauna e todo o resto em silêncio. Um silêncio de suspiros e barulhos imperceptíveis para todos e abafados pelo rádio que tocava os sucessos sertanejos da AM.
Deliciado e saciado, ele emerge do quarto. O suor lhe irriga o rosto. Sem titubear pega o telefone, mas antes avisa:
— Vou ligar para a casa dela, silêncio!
...
— Alô, a Fernanda, por gentileza?
— Ela não está, está na academia, quem gostaria?
— Escute aqui, minha senhora, a senhora é a mãe da Fernanda?
— Sim, sou, quem está falando?
— Quem está falando não importa, o que importa é que a sua filha está correndo perigo.
— Como assim? Ai meu Deus!
— Fique calma minha senhora, eu não vou fazer nada com ela, se você colaborar...
— Por favor, me diga onde ela está! Por favor!
— Você vai ter que ser paciente agora. Não ligue para nenhum número, nem para a polícia, senão eu mato ela. Você não ia querer deixar a Fernanda Costa Faria, em seus 19 aninhos morta, não mãe?
— Não, por favor!
— Você vai fazer o seguinte, vai comprar 30 cartões de R$ 10,00 da sua operadora de celular e vai passar para mim os códigos, para que eu possa continuar a entrar em contato com a senhora. Daqui a trinta minutos eu vou ligar aí e quero que você me entregue esses números.
— Está bem, está bem.
Cleverson ouvia o choro da mãe, sabia que tinha feito um bom trabalho. Sabia que dali trinta minutos teria os códigos. Pela primeira vez sorri. Libera um pouco da tensão e tenta mentalmente refazer os passos de sua vitória. Sabia que a Fernanda desligava o celular toda vez que ia para a academia, nas terças e quintas, onde ficava por mais de duas horas. Sabia seu nome porque mandara uma falsa mensagem dias antes, dizendo que ela ganhara uma viagem pela sua operadora de celular. Atendeu-a, ouviu sua voz doce e coletou seus dados, o telefone da casa, nome, idade e descrição física.
Hesitara por algumas vezes antes de dar o derradeiro telefonema, precisava imaginá-la, possuí-la. Teve que se projetar através das espessas paredes de sua cela, ir ao seu encontro. Imaginou-a como sempre quis, como quis possuir a sua irmã Fernanda, a empregada doméstica bem sucedida, num pequeno quarto quente e úmido. Sim, mais uma vez conseguira, a sudoração dos vários homens empilhados no presídio não o abalava mais. Tinha certeza que eles, lá fora, eram os verdadeiros prisioneiros.

domingo, 12 de agosto de 2007

Sob o olhar da Sociologia dos Problemas Sociais

Como eu já disse, muitas de minhas vontades e dúvidas a respeito dos faxinais vieram depois de uma rápida análise do tema para uma reportagem. Na verdade o interesse surgiu ainda antes, com um primo de um primo meu, cargo comissionado do IAP (Instituto Ambiental do Paraná), que trabalhava com o assunto. Ele me explicou, na época como os faxinais eram tratados com diferenças inclusive dentro das próprias esferas governamentais. Como a SEAB (Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento) queria a extinção dos faxinais, devido ao sistema de criação baixa (porco, galinha e cabrito) solto, em contato com as hortas.

Na internet, a despeito de algumas pesquisas do governo, o único material que encontrei foi a dissertação de mestrado em Economia pela UFPR, de Márcio da Silva, intitulada "A contribuição de florestas de araucária para a sustentabilidade dos sistemas faxinais". O autor trabalha com praticamente toda a literatura sobre o tema, o que não soma mais de cinco ou seis publicações. Entre as definições dos faxinais trabalha com a da professora CHANG, uma das primeiras pesquisadoras a trabalhar com faxinais, que define a composição dos faxinais a partir de características econômico-geográficas. Logo de início Da Silva descarta a hipótese da recente pesquisa da professora Madalena Nerone, que tenta explicar o modo de produção a partir da tradição luso-espanhola.

Portanto, Márcio explica como os faxinais surgiram a partir das condições materiais que aquela população enfrentou, em meados do século XIX, quando a região foi ocupada. As terras, de vasta predominância verde eram exploradas por seus proprietários então apenas para a extração da erva-mate, que faz parte da mata nativa. Dessa forma, eles deixavam que seus empregados habitassem na floresta, com suas criações para subsistência. O que aconteceu é que esses empregados acabaram se tornando posseiros, e o sistema de terras coletivas perdurou, mesmo depois de mudados os proprietários dos lotes. A explicação para a permanência da mata é devido à formação geográfica. O terreno plano, na região, embora de maior profundidade e facilidade, era mais ácido que o de pé-de-serra, ou fundo de vale, como queiram. Por isso as roças eram feitas nos sopés dos montes, devido à fertilidade do solo. Além do mais, a floresta próxima às casas oferecia clima mais ameno e a possibilidade de continuar o manejo da erva-mate.

Me ative, no entanto às definições de faxinais que Da Silva apresenta, já que sua abordagem posterior parte para a área da economia ecológica. Um ramo um pouco diferente do que pretendo em minha pesquisa, embora também fascinante. Ele pretende trazer um modelo de desenvolvimento sustentável, como preconiza a economia ecológica, para dentro dos faxinais. Não que o modelo faxinalense não preserve a natureza, mas porque ele é economicamente inviável. A própria degeneração dos faxinais é prova disso. Eles perdem dia a dia espaço para o agronegócio. Daí a sugestão do manejo do pinhão como alternativa de renda, junto com outras formas de financiamento, como a negociação de créditos de carbono.

O que pretendo, conforme disse no post anterior, é trabalhar a partir do vislumbre da sociologia dos problemas sociais. Algo na linha do que Mário Fuks fez em sua tese de doutorado posteriormente editada no livro "Conflito ambiental no Rio de Janeiro". Nela, o autor, através da análise de discurso, identifica como o tema do meio ambiente surgem em litígios judiciais acompanhados ou impetrados pelo Ministério Público.

Para tanto, Fuks parte da definição do caráter universal do Meio Ambiente. A constituição de 1988 caracteriza como meio ambiente também os aspectos sócio-culturais de um povo. Daí que grande parte das ações ambientais no Rio de Janeiro estarem justamente tratando do ambiente urbano, e não do natural, como seria de se esperar. E dentro do ambiente urbano, tratando quase que exclusivamente da ocupação do espaço urbano. É aqui que, já no começo identifico algo com o tema dos faxinais. Primeiro na universalidade da questão do meio ambiente. Não é de se espantar que a primeira menção a faxinal na legislação brasileira venha justo no decreto que trata da distribuição do ICMS ecológico (Decreto Estadual 3.666/97). Apesar de incluir os faxinais na mesma categoria das ARESUR (Área Especial de Uso Regulamentado), sem, portanto, considerar inicialmente os aspectos sociais, sua consequência é a organização gradativa dos faxinais, e o interesse de algumas ONGs nessas áreas. Essa é uma descoberta de FUKS que gostaria de explorar em meu trabalho, como que determinada lei opera na definição de um problema social.

O caso dos faxinais é emblemático, já que o papel do Estado não vem somente citar e destinar recursos para essas áreas, mas também em propiciar o surgimento de associações, como a Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses, que surge depois de encontro propiciado pelo IAP, em 2003. A consequência veio em 2006 com o reconhecimento dos faxinais como uma das Comunidades Tradicionais Brasileiras (voltarei ao assunto em outro post). Talvez seja isso precisamente o que pretendo alcançar com esse trabalho. Como o Estado precede a organização social nesse caso. Ou será que o processo seria inverso. Tenho ainda que conseguir acesso ao processo de formação desse decreto de 97, se é que isso é possível. Isso talvez elucidasse algumas das coisas. Fato é que hoje tramita na Assembléia um projeto de lei exclusivamente destinado a reconhecer os faxinais no Paraná e oferecer ao seu povo condições de reprodução social. Tenho o projeto em mãos ele estará num post oportuno, com comentários. Enfim, algumas perguntas permanecem, outras surgem.